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Historiografia em Rede

09/02/2010 01:47:10

Anita Lucchesi

A Moderna Concepção da História

13/10/2009 14:05:49

Em seu texto Entre o Passado e o Futuro Hannah Arendt coloca o esvaziamento do protagonismo das ações do homem e dos eventos particulares em função de uma concepção especifica da historia, qual seja, a concepção moderna.

Em seu texto Entre o Passado e o Futuro Hannah Arendt coloca o esvaziamento do protagonismo das ações do homem e dos eventos particulares em função de uma concepção especifica da historia, qual seja, a concepção moderna.

A concepção moderna da historia, segundo Arendt, encara a historia como um processo quase natural, que se movimenta autonomamente para um telos, uma historia que não se detem às ações do homem para entender política, mas sim ao conjunto de acontecimentos representado por um “todo” único que caracteriza a esta concepção processual da historia. Este todo se moveria por natureza, estando além e independente das particulares contingências das singulares situações, escapando assim do domínio do homem. Logo a historia enquanto processo seria supra e transcendente às ações do homem e aos eventos cotidianos, uma grande engrenagem independente das partes menores do processo.

Arendt argumenta que neste modo de entender a historia é como se os eventos perdessem o seu vigor porque a historia já estaria de alguma forma “tramada” e os homens sofreriam-na ao invés de agi-la.

No intento, este aspecto de “naturalidade” nesta forma de conceber a Historia vai de certa forma banir dela aquilo que Arendt chama “impredizível”, fazendo com que se acreditasse numa possível previsibilidade de tudo, como se fossem realizáveis leis para esta disciplina capazes de sistematizar a exploração deste processo e torná-lo não só compreensível, mas previsível, em detrimento de toda sorte de factualidade.

Porém esta forma de tratar a historia como independente do factual (algo que já estaria traçado e “funcionando” de acordo com este processo implacável) tem conseqüências sérias, algumas destacáveis, como segundo a própria autora, os regimes totalitários do século XX. Explicando: aceitar a historia como este “ente” superior ao homem é como relegar a experiência humana ao “correr solto”, pois presença de regras e o respeito ou desrespeito a estas seria indiferente na concepção processual da historia, na qual o todo é imutável em relação às pequenas e particulares ações do homem. Isto alteraria o modo do homem compreender o mundo e atuar nele e segundo a autora este novo relacionar-se do homem com o mundo se daria na forma de mudanças na moral e na política. O comprometimento do homem com a política seria diminuído e fragilizado, enquanto a moral seria afetada por uma grave crise ética e isto seria causado pela drástica redução ou ausência do senso de responsabilidade deste homem em relação ao “todo” que então significa a historia, uma vez que esta não está mais atrelada às ações do homem, este também se descompromete eticamente com esta. O ponto nevrálgico apontado por Arendt dentro desta concepção moderna de historia é que “isento” de responsabilidades e com seu código de ética fortemente alterado e corrompível o homem se permitiu cometer e assistir experiências injustificáveis como o caso dos regimes nazi-fascistas.

Relacionado a este assunto:
CIÊNCIA MODERNA E HISTÓRIA do Prof. Dr. Silvio Medeiros,
Publicado no Recanto das Letras em 20/11/2006

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Comentários:

  • Anita Lucchesi enviou (quinta, 15 de outubro de 2009):

    Obrigada pelo comentário, Bruno! Conheço esta obra de Foucault e acho a leitura dela fundamental para qualquer um que se preocupe em estudar história, não que eu seja foucaultiana, mas certas colaborações não podem ser perdidas de vista. Obrigada pela leitura e apreciação do texto! Um abraço e até breve!

  • Bruno Azevedo enviou (quinta, 15 de outubro de 2009):

    Acabamos caindo em certas concepções que remotam a um macrocosmo pré-socrático, como é o caso de pensar a história cíclica heraclitiana, resultado de forças opostas, as consequências ocorrem e independem de nós. O Artigo me remeteu a uma passagem de Foucault da obra As Palavras e as Coisas: "Mas então o homem não é, ele próprio, histórico: uma vez que o tempo não procede senão do próprio homem, ele só se constitui como sujeito de História mediante a sobreposição da história dos seres, da história das coisas, da história das palavras. Está sujeito aos puros acontecimentos ue estas constituem. Mas logo esta relação de simples positividade se inverte: porque o que fala na linguagem, o que trabalha e se consome na economia, o que vive na vida humana, é o homem, ele próprio." Parabéns pelo artigo, Anita e seja bem-vinda a esta excelente safra de colunistas. Por fim, não esqueçamos as célebres palavras de Hobsbawm na obra Era dos Extremos: "A única generalização cem por cento segura sobre a história é aquela que diz que enquanto houver raça humana haverá história." Grande abraço e continue nos privilegiando com os textos.

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