As nossas músicas carnavalescas, se comparadas, nos revelam que sempre tiveram uma linguagem própria, sempre ligada ao espírito alegre de viver do povo brasileiro. São músicas bonitas, escritas por pessoas humildes, até de pouca instrução, mas de muita autenticidade e graça, caminhando, como já disse, ao encontro de nosso modo de viver.
A música carnavalesca, depois do seu nascimento em nossa cidade no início do século passado, evoluiu. Mas uma figura destaca-se, quando falamos de sua história: Pixinguinha. Disse meu amigo Sérgio Cabral em um de seus livros de música popular o seguinte: “Nada mais rima com paz do que Pixinguinha”. Realmente um “santo” educador musical, em todos os sentidos. Ele, que nascera em fins do século retrasado, precisamente em 23 de abril de 1897, despediu-se na Igreja N.S. da Paz, chorado por todos os devotos da música popular brasileira.
Nossas músicas tomaram outro rumo com a sua participação. As valsas, maxixes, e polcas, ritmos em que brincava-se nesse início de século, foram esquecidos com o surgimento de uma nova geração mostrando o quanto somos alegres, geração da qual Pixinguinha fez parte.
Pixinguinha vivenciou os ranchos, os blocos, cordões, festas distribuídas em todos os cantos da cidade, cinemas, cafés cantantes, teatros, batalhas de confetes. Ele, sua flauta, seu saxofone, e as formações que criou, como os Oito Batutas, os Diabos do Céu, a Turma da Velha Guarda etc.
Mestre Pixinguinha apresentou uma grande inovação para o Carnaval. Nesse tempo as músicas eram cantadas e tocadas pelas orquestras num só tom, do início ao fim da execução. Então, ele fez a diferença: compunha primeiro a introdução, o que chamava imediatamente a atenção de todos, pois era algo diferente, para só depois entregar a música ao intérprete, que cantava no seu tom. E quando acabava a primeira ou a segunda parte, o mestre Pixinguinha então modulava a música, ou seja, fazia uma série de acordes musicais, possibilitando a orquestra executar em tom mais adequado a ela.
Essas introduções eram o que havia de mais expressivo no carnaval, pois eram as mais cantadas. Quer dizer, as músicas passariam a ser, de uma certa maneira, também do mestre Pixinguinha. Basta ouvir os arranjos de “Linda Morena”, Alalá-ô”, “Lourinha”, “É Bom Parar”, canções que não eram de sua autoria, mas, graças a suas orquestrações, passaram a ser suas também. Aliás, fato idêntico aconteceu nas músicas de meio de ano com o maestro Radamés Gnatalli, com seus belíssimos arranjos orquestrais para as gravações de Orlando Silva, Francisco Alves e outros mais.
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