Assim caminha a humanidade, desumana.
26/03/2010 15:04:03
Não posso me esquecer de falar daqueles que não conheço pessoalmente, mas que vislumbro o discurso. Falo destes que estão no portão gritando: justiça! Assassinos! Morram! Advogado mercenário! Entre outros impropérios e vitupérios públicos.
Renato Barozzi *
Volta Redonda - RJ
Conheço um sujeito que trabalha em outra cidade e passa os finais de semana em casa com sua família. Às vezes eu ligo para ele no sábado pela manhã e o chamo para tomarmos um “chopinho”. Ele invariavelmente me rechaça com seu estoque de duas respostas prontas: ou ele diz que não está bebendo – porque a bebida faz muito mal, vocês sabem –, ou diz que não está bem do estômago naquele dia. Eu, também invariavelmente, desligo o telefone e fico dando risada, pois sei que o tal sujeito viveu seu carnaval fora de época durante toda a semana em que esteve fora, mas quando chega a sua casa nos finais de semana, torna-se o ser mais imaculado do mundo.
Há ainda um outro que quando eu estava gordinho me adjetivava com os mais carinhosos e rechonchudos apelidos e vivia dizendo que eu precisava emagrecer. Agora que eu emagreci, ele já chegou até mesmo ao absurdo de me chamar de aidético, mas nunca lembra de tirar “a trave que encobre sua vista”.
Também tem um que diz não gostar de comer e beber nada: nem carne, nem cerveja, nem doce, etc. Mas quando o recebemos para uma visita parece que o sujeito estava a quarenta dias no deserto, haja vista seu estado famélico e sederento.
Não posso me esquecer de falar daqueles que não conheço pessoalmente, mas que vislumbro o discurso. Falo destes que estão no portão gritando: justiça! Assassinos! Morram! Advogado mercenário! Entre outros impropérios e vitupérios públicos. Estes, eufóricos e ansiosos títeres, os quais vejo na televisão em frente ao Fórum de Santana, julgando e condenando um casal que, no momento em que escrevo, ainda não recebeu a sentença final, também são vítimas do irracionalismo ou apagão da razão, que provavelmente acometeu o réu casal.
Deixo claro que não acredito na inocência do casal, mas isto não é motivo para condená-los a priori. O rito democrático deve ser cumprido e respeitado, ao contrário do que querem os que ao portão estão. Fico imaginando se um destes que sustentam faixas negando o direito de defesa ao casal, ao sair dali, numa rua escura, atropela um bêbado e seu pobre cachorro. Ele descerá do carro assustado, não verá ninguém na rua, entrará novamente em seu carro e irá embora sem prestar socorro. No dia seguinte, a polícia baterá a sua porta e o levará preso. Ao chegar a delegacia ele será avisado que ficará recluso por quinze anos sem direito a julgamento. Ele não aceitará e pedirá, no mínimo, a presença de um advogado, completando: Ahhh pode ser aquele mercenário mesmo!
Os tipos que citei acima estão sempre ao nosso lado e, não se engane, também estão dentro de cada um de nós. O remédio contra o mal da hipocrisia? O exercício da reflexão, da autocrítica e do diálogo constante com a moral, com a ética, com as leis e principalmente, com a consciência individual.
* É administrador, professor e editor da Revista Médio Paraíba.
As opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais da
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Comentários:
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Flavio Santiago enviou (sábado, 27 de março de 2010):
Caro Barozzi, muito pontual o seu texto. Valho-me das vossas palavras e ratifico outros casos em que a comoção pública, muita das vezes eivada pelos organismos midiáticos que tratam a notícia como mercado de ações, levou pessoas inocentes a condenação social. Quantas pessoas são, diuturnamente, condenadas pelas apresentações da mídia de forma antecipada. Situações em que há a investigação sobre determinado assunto - e investigação reza a verificação de algo e não um processo definido - e a mídia noticia, e muita das vezes pela forma como é difundida, já condena a pessoa.Quantos árabes, persas, dentre outros foram martirizados no mundo pelos atentados de 11/09. Somos levados pelas informações tendenciosas. Vide o Boris Casoy que engoliu o próprio veneno. Parabéns! Flavio Santiago
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