Luís Augusto Vieira * e
Fabiana Itaci C. Araujo **
Nossa sociedade, na era da informática e da falta de tempo, difunde informações – sem exageros aqui – como nunca visto na história da humanidade. Dentre tantas informações e até desinformações – e o atento leitor deve perceber – a política em seu sentido estrito, como aquela encarnada mui comumente por homens de terno e gravata e por algumas mulheres espalhadas pelos poderes constituídos (casas executivas, legislativas e do judiciário) em repúblicas como a nossa, está diariamente presente em tais noticiários. Como não poderia ser diferente, filtramos aquilo que nos interessa e descartamos aquilo que julgamos menos importante e, ao que se observa, excetuando as denúncias de escândalos, as quais os grandes veículos de comunicação da mídia fazem questão de ressaltar – o que salvo excessos, concordamos – pouco nos damos conta que as movimentações dos homens de gravata nos espaços instituídos pela política nacional e até fora deles, dizem respeito ao nosso dia-a-dia. Pior: além de não atentarmos para tal movimentação, não há nada mais comum e corriqueiro que frases do tipo: “detesto política”, “não tenho nada a ver com isso” e por aí vai. Que atire a primeira pedra, quem nunca falou, ou pensou isso, ou algo similar!
Mas, ao contrário do que pode parecer, esses que a ti se dirigem, não vão iniciar mais um momento de sermão pelo fato de você não lembrar em quem votou nas últimas eleições (lembra?). Nosso singelo intento é apenas começar um bate-papo, daqueles entre bons amigos num bom boteco, sobre nossa rotina e a política nossa de cada dia.
Comecemos com uma provocação. Caro leitor, podemos até odiar os políticos, mas a política, ainda que em seu sentido estrito, não tem nada haver conosco? A política só existe, só tem vida nesses espaços (um tanto cinza, diga-se de passagem) instituídos? Será? Pensemos...
Francisco Weffort (1991), já disse em certa ocasião que nada mais falso que entender política apenas como uma especialidade, como atividade digna de poucos “escolhidos”. Ao que nos parece infelizmente é assim que a maioria da população compreende política. Podemos pressupor que desse falso entendimento apontado por Weffort, decorre um dos motivos da ojeriza popular pela política, seja porque os “especialistas” da política nacional, ou falam o “politiques” e/ou fazem dela como se estivessem na cozinha da própria casa, tricotando sobre a vida do vizinho, sem sua presença, claro.
Ao que nos compete aqui, na árdua tarefa de tentar desmistificar tal inverdade, queremos chamar a atenção para fatos corriqueiros do nosso dia-a-dia que denunciam ações políticas que fazemos e nem se quer percebemos, além de uma pitada de informações mais elaborada sobre política que não faz mal a ninguém. Podem acreditar!
Por exemplo, lembremos das inúmeras brigas (umas mais intensas, outras menos) que tivemos com nossos irmãos ou coleguinhas no decorrer de nossa infância. Imaginemos que numa dessas, fomos mais espertos e não estávamos diretamente envolvidos, apenas assistíamos os dois brigões peleando intensamente entre si, e víamos claramente que o maior e mais forte possuía grande vantagem. Nossa posição de não se meter (afinal, esperto é quem não se compromete), favorece a quem? Assim sendo, nota-se que não podemos falar em neutralidade nem nos momentos em que há omissão de opinião e/ou posicionamentos, pois o silêncio (lavar as mãos) já revela uma postura política, já que dela decorrem conseqüências, das quais nem sempre temos consciência. No exemplo dado, com expectativa de não ficarmos mal com nenhum dos irmãos/ coleguinhas, deixamos o mais fraco ser prejudicado.
Ainda falando de situações do dia-a-dia, mas extrapolando o âmbito do convívio doméstico, perguntamos novamente: quando abaixamos o volume da TV e do rádio para não incomodar os vizinhos, não estaríamos tratando da velha e conhecida política da boa vizinhança? Não estaríamos imbuídos do espírito de respeito mútuo, solidariedade e de regras de conduta para a vida em sociedade?
Enfim, poderíamos trazer vários outros “causos” para elucidar a afirmativa de que política não se resume aos espaços pré-determinados pelo Estado, ou de que é, ou deve ser feita e manipulada por uma minoria que, salvo exceções, não querem nada com a cousa pública. Aliás, idéia essa consolidada propositalmente no imaginário popular, pois questionemos: quem se favorece com tal pensamento?
Contudo, a política sempre pede para rompermos com os muros de nossas casas, pois se a política é imanente ao ser humano, e o é, devemos entender que vivemos em sociedade, e que é de responsabilidade de todos, sem exceção, o cuidado com esse espaço coletivo, que chamamos aqui de sociedade. Em outras palavras, não podemos nos contentar em fazer política no espaço privado. É necessário ir além, pois como já foi dito “[...] as desgraças dos que não se interessam por política é serem governados pelos que se interessam [...]”. Mais uma vez o questionamento é inevitável: você caro leitor, tem se interessado por política? Tem acompanhado, como andam os trabalhos no legislativo, executivo e judiciário? Aliás, justiça seja feita, este último tem se colocado como uma verdadeira caixa de surpresas em momentos atuais, ora prendem gente importante – como no dito popular – ora soltam com muito mais facilidades que prenderam, e o pior, diferente dos demais poderes constituídos, a fiscalização, a escolha e o acompanhamento de tal órgão está fechado a muito tempo, ou melhor, nunca esteve aberto. Tai, será que não seria de bom tom, uma boa causa e uma boa hora em se interessar por política? Não seria a hora de descruzar os braços e se unir àqueles que reivindicam por um judiciário, com participação popular, mais transparente e menos burocrático?
Caro leitor, bem sabemos que as escolhas são de cunho pessoal, mas gostando ou não, querendo ou não, a política como tentamos demonstrar aqui, está em nossa casa, com nossos vizinhos, e nos espaços institucionalizados, e ela só irá melhorar, se aprimorar e de fato estar a serviço da sociedade, se dela fizermos parte de forma ativa, uma vez que “a melhor e única forma de se melhorar a rua, o bairro, a cidade, o país e o mundo em que vivemos é através da ação política”.
Referência bibliográfica:
WEFFORT, Francisco C. Os clássicos da política. 3.ed. São Paulo: Ática, 1991.
Os Autores
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Luís Augusto Vieira, tem 31 anos, é Assistente Social com mestrado pela PUC-SP, professor das faculdades FMU e FAMA em São Paulo, é também pesquisador convidado do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Movimentos Sociais – NEMOS pela PUC-SP.
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Fabiana Itaci C. Araujo, tem 29 anos, é psicóloga, mestranda em Psicologia Social pela PUC-SP, e Especialista em Política Social e Gestão Institucional e professora da FMU.
Cotidianamente vivem o exercício político da vida de um casal!
Contato:
fabi-gu@hotmail.com